segunda-feira, fevereiro 26, 2007

“UM DECÁLOGO LIBERAL”(*)

por Bertrand Russell

Talvez a essência da concepção liberal possa ser resumida num novo decálogo, sem a intenção de substituir o antigo mas, tão só, de suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de promulgar, poderiam ser enunciados da seguinte maneira:

1. Não te sentirás absolutamente certo de coisa alguma.

2. Não pensarás ser vantajoso progredir escondendo as provas, pois estas virão à luz inapelavelmente.

3. Não desencorajarás o raciocínio pois com ele vencerás.

4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja a de teu marido ou de teus filhos, esforçar-te-ás por superá-la pela força dos argumentos e não pela da autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não respeitarás a autoridade de outros, pois encontrar-te-ás com autoridades contraditórias.

6. Não usarás do poder para suprimir opiniões que julgas perniciosas, pois se o fizeres as opiniões suprimir-te-ão.

7. Não temerás ser excêntrico em tuas opiniões pois toda e qualquer opinião hoje aceita já foi outrora excêntrica.

8. Encontrarás mais prazer na divergência inteligente do que na concordância passiva visto que, se apreciares devidamente a inteligência, a primeira implica um acordo mais profundo do que a segunda.

9. Serás escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois mais inconveniente será quando tentares ocultá-la.

10. Não sentirás inveja da felicidade daqueles que vivem num paraíso de insensatos, pois somente um insensato pensará que isso é felicidade.

(*) Este decálogo apareceu pela primeira vez no final do meu artigo “The Best Answer to Fanaticism: Liberalism”, em The New York Times Magazine, 16 de dezembro de 1951.

Extraído da Autobiografia de Bertrand Russell, vol. 3, pp. 71 e 72.
Fazer o que se ele pensou nisso bem antes de muita gente e ainda pôs em prática. :)

4 comentários:

César disse...

Ae K, este era um grande homem quando vivo entre nós. Apoś morrer continuou sendo, pois suas obras são de qualidades inestimáveis para o enriquecimento humano. Pena que não é muito cultivado entre nossa comunidade científica.

Silvia Cléa disse...

OI, K!

Falando em comunidade científica...
"Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma Ciência."
(trova de Clymaco da Costa muitas vezes atribuída à Ruy Barbosa)
Mas vale pela, digamos, reflexão... ;o)))
[]s,
Silvia

Kynismós! disse...

Mais direto impossível Silvia. :)
Essa, que é mesmo do Rui, se aplica divinamente não só a boa parte da comunidade científica como a quase todo povo brasileiro:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."

João Carlos disse...

Vale a observação que Rui não se rendeu à mediocridade geral. Eu - otimista incorrigível - prefiro citar Chico Buarque:

"(...)Enquanto eu puder falar,
alguém vai ter que me ouvir(...)"