sábado, junho 18, 2016

Não Queremos Nenhuma Educação

A educação sempre foi um interesse minoritário na Inglaterra. Os ingleses, em geral, preferiram manter intacta a plena beleza da ignorância e, no geral, saíram-se extraordinariamente bem, não obstante os 125 anos de educação compulsória de seus rebentos.

No passado a ignorância era puramente passiva; mera ausência de conhecimento. Recentemente, no entanto, assumiu uma qualidade mais positiva e maligna: uma profunda aversão por qualquer coisa que cheire a inteligência, educação ou cultura. Não faz muito tempo havia uma canção popular cujos primeiros versos capturavam, com sucesso, o clima generalizado de hostilidade: “Não precisamos de nenhuma educação / não precisamos de nenhum controle mental”.(1) Alguns meses atrás notei uns cartazes nas paredes anunciando uma nova canção: “Pobre, branco e estúpido”.

Gostaria de poder dizer que havia alguma ironia, mas o culto à estupidez se tornou, na Inglaterra, o que o culto à celebridade é nos Estados Unidos. Chamar alguém de inteligente nunca foi um elogio óbvio na Inglaterra, mas é necessário um tipo especial de perversidade por parte dos estudantes da escola secundária situada a uns 350 metros do hospital em que trabalho, para dizer a um dos colegas que tomou uma overdose por conta do constante assédio moral a que foi submetido: “Você é estúpido porque é inteligente”.

O que quiseram dizer com esse aparente paradoxo? Indicar que qualquer um que faça um esforço para aprender e tenha bom desempenho escolar está perdendo tempo, quando poderia estar envolvido nas verdadeiras coisas da vida, tais como cabular aulas no parque ou vagar pelo centro da cidade. Além disso, havia ameaça nas palavras deles: se você não corrigir os modos e juntar-se a nós, diziam, vamos bater em você. Isso não era uma ameaça vazia: muitas vezes encontro pessoas na minha prática hospitalar, nos seus vinte ou trinta anos, que desistem da escola sob tal constrangimento e, subsequentemente, percebem que perderam uma oportunidade que, caso tivessem aproveitado, teria mudado muito todo o curso de suas vidas para melhor. E aqueles que freqüentam as poucas escolas na cidade que mantêm padrões acadêmicos altos arriscam-se a levar uma surra, caso se atrevam a ir aonde os brancos estúpidos vivem. No ano passado, tratei de dois meninos na emergência após tal espancamento, e de dois outros que tornaram overdoses por medo, de receber uma surra pelas mãos dos vizinhos.

Assim como é impossível ir à falência subestimando o gosto do público norte-americano, da mesma maneira é impossível exagerar as abismais profundezas educacionais nas quais uma grande proporção de ingleses agora está imersa, mau sinal para o futuro do país no mercado global. Muito poucos dos jovens de dezesseis anos que atendo como pacientes conseguem ler ou escrever com facilidade, e não veem a questão de serem ou não capazes de ler como algo, no mínimo, surpreendente ou insultante. Atualmente, testo o grau de instrução básica de quase todo jovem que encontro, no caso de a falta de instrução provar ser uma das causas de seu sofrimento. (Recentemente, tive um paciente cujo irmão cometeu suicídio, em vez de enfrentar a humilhação pública de expor ao funcionário da seguridade social que era incapaz de ler os formulários que tinha de preencher.) Podemos ver só pelo modo como esses jovens seguram uma caneta ou um livro que não têm nenhuma familiaridade com tais instrumentos. Mesmo aqueles que têm a impressão de que podem ler ou escrever de maneira adequada são completamente derrotados por palavras de três silabas, e embora possam, às vezes, ler as palavras de um texto, não as compreendem melhor do que se estivessem escritas em eslavo eclesiástico.

Não lembro de ter encontrado um menina branca de dezesseis anos, procedente do conjunto habitacional próximo ao hospital, que conseguisse multiplicar 9 x 7 (não estou exagerando). Às vezes 3 x 7 os derrota. Um rapaz de dezessete anos disse-me: “Ainda não estamos tão adiantados na matéria”. Isso depois de doze anos de educação compulsória (ou, devo dizer, freqüência escolar).

Quanto aos conhecimentos em outras esferas, são quase os mesmos padrões da matemática. A maioria dos jovens brancos que encontrei não consegue, literalmente, nomear um único escritor e, por certo, não sabe recitar um verso de poesia. Nenhum de meus jovens pacientes sabia as datas da Segunda Guerra Mundial, para não mencionar as da Primeira Guerra; alguns nunca ouviram falar dessas guerras, embora um deles, que ouvira falar da Segunda Guerra; alguns nunca ouviram falar dessas guerras, embora um deles, que ouvira falar na Segunda Guerra há pouco tempo, pensasse que tivesse acontecido no século XVIII. Na circunstância da total ignorância reinante, fiquei impressionado por ele ter ouvido falar no século XVIII. O nome de Josef Stalin nada significa para esses jovens e nem mesmo soa minimamente familiar, como (às vezes) acontece com o nome de William Shakespeare. Para eles, 1066 é mais parecido com um preço do que com uma data histórica.(2)

Assim, os jovens estão condenados a viver num eterno presente, um presente que existe simplesmente, sem conexão com o passado que pode explicá-lo ou com um futuro que dele possa surgir. A vida desses jovens é, verdadeiramente, uma sucessão de maldições. Da mesma maneira, estão privados de quaisquer padrões razoáveis de comparação pelos quais julgar os próprios males. Acreditam que são carentes porque as únicas pessoas com as quais podem comparar-se são as que aparecem nos anúncios ou na televisão.

O simples semianalfabetismo e a ignorância não necessariamente impedem esses jovens de passar nos exames públicos, ao menos nas provas de nível mais baixo. Uma vez que o insucesso é visto, agora, como fatalmente prejudicial à autoestima, quem quer que se apresente para fazer as provas provavelmente sairá com um diploma. Recentemente estive com um rapaz de dezesseis anos em minha clínica que escrevia “Dear sir” [Prezado senhor] como “Deer sur” e “I’m as ime” [I’m as I am – Sou como sou] (a gramática está em plena consonância com sua ortografia), que fora aprovado nas provas públicas – em Inglês.

Claramente, algo muito estranho está acontecendo em nossas escolas. Nossas práticas educacionais atuais são tão grotescas que seria uma afronta à pena de Jonathan Swift satirizá-las. Na grande área metropolitana em que trabalho, por exemplo, os professores recebem instruções de que não devem ministrar as tradicionais disciplinas de ortografia e gramática.
Dizem que a atenção mesquinha aos detalhes da sintaxe e da ortografia inibe a criatividade da criança e a capacidade de autoexpressão, Além disso, afirmar que existe uma maneira correta de falar e de escrever é favorecer uma espécie de imperialismo cultural burguês; e dizer para a criança que ela fez algo errado é necessariamente conferir-lhe um senso de inferioridade  debilitador do qual nunca se recuperará. Encontrei poucos professores que desobedeceram tais instruções numa atmosfera de clandestinidade, temendo pelos próprios empregos, o que lembra um pouco a atmosfera que cercava aqueles que secretamente tentavam propagar a verdade por trás da Cortina de Ferro.

Contaram-me de uma escola em que o diretor autorizara os professores a fazer correções, mas somente cinco por trabalho, independente do número verdadeiro de erros. Assim, é claro, preservava-se o amour-propre das crianças, mas parecia não ter ocorrido a esse pedagogo que a regra de cinco correções teria conseqüências lamentáveis. O professor poderia escolher corrigir um erro ortográfico de uma palavra, por exemplo, e desconsiderar exatamente o mesmo erro num próximo exercício. Como a criança interpretará essa correção segundo o princípio do diretor? O menos inteligente, talvez, verá como uma espécie de desastre natural, como as condições meteorológicas, e a respeito disso, pouco pode fazer; ao passo que o mais inteligente provavelmente chegará à conclusão de que o principio de correção, como tal, é inerentemente arbitrário e injusto.

O mais alarmante é que arbitrariedade reforça precisamente o tipo de disciplina que vejo, ao meu redor, ser exercida por pais cuja filosofia educacional é uma criação laissez-faire misturada com fúria insensata. Uma criança pequena corre fazendo barulho, causando estragos e destruição ao seu redor; a mãe (os pais dificilmente existem, exceto na mera acepção biológica), primeiro, ignora a criança; depois, grita para ela parar; novamente a ignora; suplica que ela pare; volta a ignorá-la; ri da criança; por fim, perde a cabeça, grita algumas ofensas e dá-lhe um safanão.

Que lição a criança tira disso? Aprende a associar a disciplina, não ao  princípio e à punição, não ao próprio comportamento, mas a associá-los ao estado exasperado da mãe. Esse próprio humor dependerá de muitas variáveis, poucas sob o controle da criança. A mãe pode estar irritadiça por conta da última briga com o último namorado ou por um atraso no último pagamento do cheque da seguridade social, ou ela pode estar comparativamente tolerante porque recebeu convite para uma festa ou tenha acabado de descobrir que não está grávida. O que a criança certamente nunca aprenderá, no entanto, é que a disciplina tem um significado além da capacidade física e do desejo da mãe de impô-la.

Tudo é reduzido ao mero concurso de vontades, e assim a criança aprende que toda limitação é apenas uma imposição arbitrária de alguém ou algo maior e mais forte do que ela. Estão lançadas as bases para uma intolerância sangrenta para com qualquer autoridade, mesmo que essa autoridade esteja baseada numa patente superioridade, no conhecimento benevolente e na sabedoria. O mundo é, dessa maneira, um mundo de egos permanentemente inflamados, que tentam impor as próprias vontades uns aos outros.

Nas escolas, as crianças pequenas não são mais ensinadas em classes, mas em pequenos grupos. Esperam que aprendam por descobertas e brincadeiras. Não há quadro-negro e nada é aprendido de cor. Talvez o método de ensino que transforma tudo em brincadeira funcione quando o professor é talentoso e as crianças já estejam socializadas para aprender; todavia, quando, e normalmente é o caso, nenhuma dessas condições ocorre, os resultados são desastrosos, não só no curto prazo mas, provavelmente, para sempre.

As próprias crianças, no final, percebem que há algo errado, mesmo que não sejam capazes de articular esse conhecimento. Das gerações de crianças que cresceram com tais métodos pedagógicos, é impressionante ver quantas, das mais inteligentes do grupo, percebem, por volta dos vinte anos, que falta algo rias suas vidas. Não sabem o que é, e perguntam-me o que poderia ser. Cito-lhes Francis Bacon: “Mau centro de ações humanas é a própria pessoa”.(3) Perguntam-me o que isso quer dizer, e respondo que se não têm interesses além deles mesmos, o mundo torna-se tão pequeno quanto o era no dia em que nasceram, e que os horizontes não se expandem minimamente.
— Como vamos nos interessar por alguma coisa? — perguntam.

É aí que o efeito fatal da educação como mero entretenimento se faz notar. Para o desenvolvimento do interesse, é necessário poder de concentração e a capacidade de tolerar certo grau de tédio enquanto são aprendidos os elementos de uma determinada habilidade visando um fim meritório. Poucas pessoas são atraídas naturalmente pelos caprichos da ortografia inglesa ou pelas regras da aritmética elementar; no entanto, tais regras devem ser dominadas, caso a vida diária em um mundo cada vez mais complexo deva ser transacionada com sucesso. É um simples dever dos adultos, do ponto de vista de possuidores de maior conhecimento e experiência de mundo, transmitir às crianças o que precisam saber, de modo que, mais tarde, possam verdadeiramente escolher. A equação demagógica de toda autoridade ser um injustificado autoritarismo político, mesmo para as crianças pequenas, somente conduz ao caos pessoal e social.

Infelizmente, vinte anos não é idade para aprender a concentrar-se nem a tolerar esforços que, em si, não são prazerosos. Por nunca terem experimentado as alegrias de dominar algo pelo esforço disciplinado e com mentes profundamente influenciadas pelos movimentos rápidos e superficiais de imagens excitantes na televisão, esses jovens adultos descobrem que um interesse continuado em qualquer coisa está além do alcance. No moderno mundo urbano, qualquer um que não consiga concentrar-se é, na verdade, uma alma perdida, pois as comunidades em tal mundo são aquilo que cresce em torno de interesses que as pessoas têm em comum. Além disso, numa era de crescente mudança tecnológica, as pessoas sem habilidade ou disposição para o aprendizado ficarão cada vez mais para trás.

A patética noção pedagógica de que a educação deva ser “relevante” para as vidas das crianças ganhou terreno na Inglaterra nos anos 1960. A idéia de que isso confinaria as crianças ao mundo que já conheciam — e que também era um mundo bastante desanimador, como pode dar testemunho qualquer um com o menor contato com a classe trabalhadora inglesa — aparentemente nunca ocorreu àqueles educadores que alegavam ter excepcional comiseração pelos que estavam em relativa desvantagem. Como resultado, a estrada para o progresso social — talvez, amiúde, a mais trilhada — estava-lhes, substancialmente, fechada.

Infelizmente, é muito difícil derrubar esses incrementos pedagógicos (ou antipedagógicos) mesmo hoje, quando o governo central percebeu tardiamente as consequências desastrosas. Por quê? Primeiro, os professores e os professores dos professores nas faculdades de Pedagogia estão profundamente imbuídos dessas ideias educacionais que nos fizeram chegar a esse ponto. Segundo, uma enorme burocracia educacional cresceu na Inglaterra (um burocrata por professor, pululando como almirantes nas marinhas sul-americanas), que usa de todos os subterfúgios para evitar a mudança: da falsificação de estatísticas a interpretações errôneas intencionais da política do governo. O ministro da educação propõe, mas a burocracia dispõe. Dessa maneira, sói acontecer de a Grã-Bretanha gastar uma parcela percentualmente maior do PIB na educação que qualquer um dos concorrentes e acabar com uma população catastroficamente mal-educada, cuja falta de inteligência torna-se evidente no olhar bovino visto em cada rua do país, e que é notado por meus amigos estrangeiros.

Más como tem sido as políticas educacionais, contudo, subsiste uma dimensão cultural importante e refratária ao problema. É fácil — ao menos conceitualmente — ver o que deve ser feito no plano da política pública porém o desdém inglês pela educação não é facilmente superado, mesmo no princípio.

No bairro em que trabalho há muitos grupos de imigrantes. Os maiores são do noroeste da Índia, de Bangladesh e da Jamaica. Há também um grande número de brancos da classe trabalhadora. As crianças de todos esses grupos freqüentam as mesmas escolas ruins, com os mesmos maus professores, mas os resultados são expressivamente diferentes. As crianças dos imigrantes pobres e desempregados do noroeste da Índia nunca são analfabetos ou semianalfabetos; um número considerável prossegue nos estudos, chegando até o nível mais alto, apesar da casa superlotada e da aparente pobreza. Os outros grupos competem entre si para ver quem obtém padrão educacional mais baixo.

O fato lamentável é que uma proporção substancial da população inglesa simplesmente não percebe a necessidade da educação. Parece que estão presos na ideia vitoriana de que a Inglaterra é, por direito e pela providência divina, a oficina do inundo, que os ingleses, em virtude do local de nascimento, vêm ao mundo sabendo tudo o que é necessário que saibam e, se não houver empregos para o trabalho não qualificado (e um tanto relutante, deve-se dizer) é culpa da união do governo com os plutocratas de cartola e casaca que conspiraram para explorar a mão de obra japonesa barata. Uma coisa que um inglês jovem desempregado definitivamente não fará é concentrar esforços para adquirir qualquer habilidade para o mercado.

Tive esse tipo de conversa, em inúmeras ocasiões, com jovens em torno dos vinte anos que estão desempregados desde que deixaram a escola, cujo nível educacional geral está esboçado acima:
—Você não pensa em melhorar sua formação?
— Não.
— Por que não?
— Não tem porquê. Não tem emprego.
— Será que não teria outro motivo para buscar uma educação melhor?
— Não. (Isso após ficar perplexo com o que eu estava tentando dizer com aquilo.)

Há duas coisas que devemos notar nessa conversa. A primeira é que o jovem desempregado considera o número de empregos de uma economia como uma quantidade fixa. Assim como a renda nacional é um bolo a ser repartido em fatias iguais ou desiguais, da mesma maneira o número de empregos numa economia não guarda nenhuma relação com a conduta das pessoas que nela vivem, mas está fixado de modo imutável. Isso é um conceito de como o mundo funciona que é assiduamente vendido, não só nas escolas durante os “Estudos Sociais”, mas nos meios de comunicação de massa.

A segunda coisa que é digna de atenção é a ausência total da idéia do cultivo do intelecto como um hem em si mesmo, que possui um valor independente das perspectivas de emprego. Assim como as respostas dos pacientes às mesmas doenças e incapacidades variam de acordo com a predisposição e o temperamento, da mesma maneira a resposta de um homem ao desemprego. Alguém com interesse em buscar, ou ao menos com as ferramentas mentais para procurar, algo que lhe interesse não está em situação tão desesperadora quanto alguém que, obrigado pela tábula rasa do próprio intelecto, tem o olhar vago em quatro paredes por semanas, meses ou anos a fio. Provavelmente, terá uma idéia de um emprego autônomo ou, pelo menos, buscará trabalho em lugares e campos novos. Não está condenado à estagnação.

Existe uma grande vantagem psicológica para a subclasse branca manter desdém pela instrução: permite que mantenham a ficção de que a sociedade que os rodeia é brutal ou até grotescamente injusta e que eles são as vítimas dessa injustiça. Se, ao contrário, a educação fosse vista por eles como um meio disponível para todos ascenderem no mundo, como de fato pode acontecer em muitas sociedades, todo o ponto de vista deles terá, naturalmente, de mudar. Em vez de atribuir seus infortúnios aos outros, terão de olhar para dentro deles mesmos, o que sempre é um processo doloroso. Aqui vemos o motivo de o sucesso escolar ser extremamente desencorajado, e aqueles que não o abandonam serem perseguidos nas escolas da subclasse: é percebido, de modo incipiente, sem dúvida, como uma ameaça para todo o Weltanschauung. O sucesso de um é a exprobração de todos.

Todo um modo de vida está em jogo. Esse modo de vida é semelhante ao vício das drogas, em que o crime é a heroína e a pensão do Bem-Estar Social, a metadona. Esta última, sabemos, é o hábito mais difícil de romper, e seus prazeres, apesar de menos intensos, duram por mais tempo. A satisfação amarga de ser dependente do sistema de seguridade social é inerente à atribuição da condição de vítima, o que por si só explica, simultaneamente, o insucesso da pessoa e a absolve da obrigação de fazer algo por si mesma, ex hypothesi impossível, por causa da natureza injusta da sociedade que a tornou, primeiramente, numa vítima. O valor redentor da educação destrói todo o cenário de faz de conta: não é de admirar que tais pessoas não queiram ser educadas.

De certo modo (e somente de um modo), no entanto, a subclasse foi vitimizada ou, talvez, traída seja uma palavra melhor. Os disparates pedagógicos impingidos às classes mais baixas foram idéias, não dessas próprias classes, mas daqueles que estavam em posição de evitar seus efeitos perniciosos, ou seja, os intelectuais da classe média. Caso tivesse propensão para a paranóia (o que, felizmente, não tenho), diria que os esforços dos pedagogos foram parte de um imenso complô das classes médias para conservar o poder para si mesmas e restringir a competição, no processo de criar sinecuras para alguns de seus membros menos capazes e dinâmicos — a saber, os pedagogos. Caso essas classes médias tenham conservado o poder, foi em um país enfraquecido e empobrecido.


(1) No original: “We don’t need no education / We don’t need no thought control”. Trecho de “Another Brick in the Wall (Part 2)”, faixa do álbum The Wall (1979) da banda inglesa Pink Floyd. (N. T.).

(2) Ano da conquista da Inglaterra pelos normandos. (N. T.).

(3) Francis Bacon, Ensaios. Trad. e pref. Álvaro Ribeiro. Lisboa, Guimarães Editores, 1992, XIII, p. 98. (N. T.)


Transcrito do livro: A Vida Na Sarjeta (Capítulo 7). Theodore Dalrymple (Anthony Daniels). São Paulo, É Realizações, 2014.


Sobre o livro:

A pior pobreza é a da alma: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-pior-pobreza-e-a-da-alma

Livro: http://www.erealizacoes.com.br/produto/a-vida-na-sarjeta---o-circulo-vicioso-da-miseria-moral


domingo, agosto 24, 2014

A PUBLICIDADE É A MELHOR CIÊNCIA SOCIAL CONTEMPORÂNEA



No futuro, verão nossas pesquisas em Ciências Humanas, realizadas nas universidades, como uma nulidade. Por um motivo simples: não lidam com a vida corno ela é, mas como sua ideologia gostaria que fosse. Os documentos estudados pelos nossos descendentes para compreender como vivemos, sentimos, trabalhamos, sonhamos e morremos serão as pesquisas de mercado feitas pelas agências de publicidade. Além de não padecerem da doença ideológica, os publicitários e marketeiros, melhores cientistas sociais do mundo contemporâneo, perdem o emprego ou a conta do cliente se não entregarem uma percepção o mais próxima possível da realidade para o seu cliente. Uma das razões de os departamentos de Ciências Humanas serem um deserto sim nenhuma sensibilidade empírica para a realidade é o fato de serem pobres e não arcarem com as consequências das bobagens que falam em sala de aula para os seus discípulos apaixonados. Como diz o intelectual americano Thomas Sowell, um piloto não pode errar no que faz, e um intelectual nunca erra porque o que ele diz não tem consequências reais no mundo. Além disso, não existe dinheiro nesses departamentos, apenas umas poucas bolsas e salários irrelevantes, ao contrário do mundo da publicidade, onde muita grana circula. Portanto, a visão que nossos descendentes terão de nós, a mais científica possível, virá das agências de publicidade, esses templos da empiria contemporânea.

Capítulo 21 do livro "A era do ressentimento", Luiz Felipe Pondé. – São Paulo : Leya, 2014.



Indicação do Rodrigo Constantino: http://abr.ai/1oEhChI

http://bit.ly/1qdpd7N

sábado, outubro 26, 2013

domingo, junho 23, 2013

Sobre a escrota PEC 37/2011...





O MP é independente... as polícias são subordinadas ao Poder Executivo...

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Porém a PEC 37/2011 torna a investigação privativa das polícias:

"§ 10. A apuração das infrações penais de que tratam os §§ 1.º e 4.º deste artigo, incumbem privativamente às polícias federal e civis dos Estados e do Distrito Federal, respectivamente."

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=969478&filename=PEC+37%2F2011

Segundo o dicionário Houaiss:

Privativo:
adjetivo
1 que contém ou leva à privação
Ex.: pena p. da liberdade
2 que priva, que goza da convivência de
3 que não é permitido a todos, só a algumas pessoas; próprio, exclusivo, especial
Exs.: elevador p. dos juízes
armas p. das Forças Armadas
4 que é peculiar a um indivíduo ou grupo; característico, específico, exclusivo
Ex.: estilo p. desse escritor
5 que indica privação, falta de determinado traço, significado etc. (diz-se de afixo, prefixo etc.); p.ex., o a- em amoral é prefixo privativo

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O MP tem sim poderes pra investigar...

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"CONSTITUIÇÃO FEDERAL:

Art. 128. O Ministério Público abrange:

§ 5º - Leis complementares da União e dos Estados, cuja iniciativa é facultada aos respectivos Procuradores-Gerais, estabelecerão a organização, as atribuições e o estatuto de cada Ministério Público, observadas, relativamente a seus membros:"

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm

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LEI Nº 8.625, DE 12 DE FEVEREIRO DE 1993.
(Institui a Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, dispõe sobre normas gerais para a organização do Ministério Público dos Estados e dá outras providências.)

Art. 26. No exercício de suas funções, o Ministério Público poderá:

I - instaurar inquéritos civis e outras medidas e procedimentos administrativos pertinentes e, para instruí-los:

a) expedir notificações para colher depoimento ou esclarecimentos e, em caso de não comparecimento injustificado, requisitar condução coercitiva, inclusive pela Polícia Civil ou Militar, ressalvadas as prerrogativas previstas em lei;

b) requisitar informações, exames periciais e documentos de autoridades federais, estaduais e municipais, bem como dos órgãos e entidades da administração direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

c) promover inspeções e diligências investigatórias junto às autoridades, órgãos e entidades a que se refere a alínea anterior;

II - requisitar informações e documentos a entidades privadas, para instruir procedimentos ou processo em que oficie;

III - requisitar à autoridade competente a instauração de sindicância ou procedimento administrativo cabível;

IV - requisitar diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial e de inquérito policial militar, observado o disposto no art. 129, inciso VIII, da Constituição Federal, podendo acompanhá-los.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8625.htm

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LEI COMPLEMENTAR Nº 75, DE 20 DE MAIO DE 1993
(Dispõe sobre a organização, as atribuições e o estatuto do Ministério Público da União.)

Art. 7º Incumbe ao Ministério Público da União, sempre que necessário ao exercício de suas funções institucionais:

II - requisitar diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial e de inquérito policial militar, podendo acompanhá-los e apresentar provas;

III - requisitar à autoridade competente a instauração de procedimentos administrativos, ressalvados os de natureza disciplinar, podendo acompanhá-los e produzir provas.

Art. 8º Para o exercício de suas atribuições, o Ministério Público da União poderá, nos procedimentos de sua competência:

I - notificar testemunhas e requisitar sua condução coercitiva, no caso de ausência injustificada;

II - requisitar informações, exames, perícias e documentos de autoridades da Administração Pública direta ou indireta;

III - requisitar da Administração Pública serviços temporários de seus servidores e meios materiais necessários para a realização de atividades específicas;

IV - requisitar informações e documentos a entidades privadas;

V - realizar inspeções e diligências investigatórias;

VI - ter livre acesso a qualquer local público ou privado, respeitadas as normas constitucionais pertinentes à inviolabilidade do domicílio;

VII - expedir notificações e intimações necessárias aos procedimentos e inquéritos que instaurar;

VIII - ter acesso incondicional a qualquer banco de dados de caráter público ou relativo a serviço de relevância pública;

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lcp/lcp75.htm

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sábado, abril 28, 2012



“Creio que eu poderia transformar-me e viver como os animais. Eles são tão calmos e donos de si,
Detenho-me para contemplá-los sem parar.
Não se atarantam nem se queixam da própria sorte,
Não passam a noite em claro, remoendo suas culpas,
Nem me aborrecem falando de suas obrigações para com Deus.
Nenhum deles se mostra insatisfeito, nenhum deles se acha dominado pela mania de possuir coisas.
Nenhum deles fica de joelhos diante de outro, nem diante da recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos.
Nenhum deles é respeitável ou desgraçado em todo o amplo mundo.”
Walt Whitman


Extraído do prefácio de “A conquista da felicidade” de Bertrand Russell.

domingo, setembro 09, 2007

As soluções de Fermi1

Hans Chistian Baeyer

Do College of William and Mary


Às cinco horas e vinte e nove minutos da madrugada de uma segunda-feira, em julho de 1945, explodia a primeira bomba atômica feita no mundo, no deserto, cem quilômetros a noroeste de Alamogordo, no Novo México. Quarenta segundos depois, a onda de choque da explosão atingia o campo da base, onde estavam os assombrados cientistas que contemplavam o histórico espetáculo. A primeira pessoa a se mexer foi o físico ítalo-americano Enrico Fermi, que estava ali para testemunhar o apogeu do projeto que tinha ajudado a iniciar.

Antes da bomba explodir, Fermi arrancou uma folha de papel de um bloco de notas e rasgou-a em pequenos pedaços. Depois, quando percebeu o primeiro tremor da onda de choque espalhando-se pela atmosfera quiescente, jogou os fragmentos de papel para cima. Os pequeninos fragmentos flutuaram em direção oposta à da nuvem em forma de cogumelo que se erguia no horizonte, e caíram cerca de vinte e três metros para trás. Depois de um cálculo mental rápido, Fermi anunciou que a energia da bomba fora equivalente à provocada pela explosão de dez mil toneladas de TNT. No local, também estavam postos instrumentos sofisticados. As análises das respectivas leituras da velocidade e da pressão da onda de choque, que levaram várias semanas para se completarem, confirmaram a estimativa imediata de Fermi (não se tem certeza de como Fermi a realizou, mas provavelmente foi assim: pela medida da velocidade com que o ar se expandia pela explosão, estimou a energia cinética total dissipada na atmosfera e depois dividiu esta quantidade de energia pela liberada na explosão de uma tonelada de TNT).

A equipe da explosão da bomba ficou impressionada, porém não surpresa, pela brilhante improvisação científica. O gênio de Enrico Fermi era conhecido em todo o mundo da Física. Em 1938 recebeu o Prêmio Nobel pelo seu trabalho na física das partículas elementares e, quatro anos depois em Chicago, provocou a primeira reação nuclear em cadeia sustentada, com o que o mundo entrou na idade das armas atômicas e da geração industrial de energia nuclear. Nenhum outro físico da sua geração, e nenhum outro desde então, foi ao mesmo tempo um experimentador magistral e um teórico de ponta. Em escala de miniatura, os pequeninos pedaços de papel, e a análise do respectivo movimento, exemplificam esta cominação única de talentos.

Como todos os virtuosi, Fermi tinha um estilo próprio. Sua abordagem da Física não suportava oposição; nunca lhe ocorria que pudesse falhar na busca da solução de um problema. Os seus artigos e livros revelam desdém pelos ornamentos – revelam a preferência pela via mais direta para chegar a resposta, e não pela via intelectualmente mais elegante. Ao chegar nos limites da sua acuidade, Fermi completava a tarefa pela força bruta.

Para ilustrar esta abordagem, imaginemos que um físico queira determinar o volume de um corpo irregularmente conformado – o da Terra, por exemplo, que é ligeiramente piriforme. Sem alguma espécie de fórmula, qualquer pessoa pode se sentir bloqueada; há, porém diversas maneiras de conseguir uma delas. A consulta a um matemático é um caminho, mas encontrar um deles que tenha conhecimentos e interesse suficientes para ajudar é, usualmente, difícil. Outro caminho é fazer uma busca na literatura matemática, o que é demorado e possivelmente infrutífero, pois os modelos ideais que interessam aos matemáticos muitas vezes não estão de acordo com os corpos irregulares da natureza. Finalmente, o físico poderia considerar o abandono de todas as pesquisas a fim de deduzir uma fórmula a partir de princípios matemáticos básicos; porém, como é evidente, quem quer que se decidisse a dedicar grande período de tempo à geometria teórica jamais teria se tornado um físico2.

Uma outra maneira seria o físico fazer como Fermi teria feito – calcular numericamente o volume. Em lugar de se apoiar em uma fórmula, o cálculo envolveria a divisão mental do planeta em vários pequenos cubos, cada qual com um volume facilmente determinado pelo produto entre o comprimento, a largura e a altura; a adição das respostas destes problemas mais abordáveis (com o aumento do número de cubos aumentaria a exatidão do cálculo) levaria à estimativa final. Este método leva somente a uma solução aproximada, mas, como não depende de qualquer fórmula desconhecida, levará com certeza ao resultado desejado; era isto que importava a Fermi. Com a introdução, após a Segunda Guerra Mundial, dos computadores e, depois, das calculadoras portáteis, o cálculo numérico se tornou o procedimento padrão da Física.

A técnica de dividir problemas difíceis em problemas menores, mais abordáveis, aplica-se a muitos problemas além dos que se resolvem por cálculo numérico. Fermi era excepcional neste método prático. A fim de ensiná-lo aos seus alunos, desenvolveu um tipo de questão que ficou associado ao seu próprio nome. Um problema de Fermi tem um perfil característico. Ao se escutá-lo pela primeira vez não se tem nem mesmo a mais remota idéia sobre qual poderia ser sua resposta. E nota-se que a informação existente é muito pouca para se encontrar a solução. Porém, quando o problema for dividido em subproblemas, cada qual solúvel sem a ajuda de especialistas ou de livros de referência, pode-se fazer uma estimativa, de cabeça ou rabiscando em qualquer rascunho que pode estar bem próxima da solução exata.

Suponhamos que se queira determinar a circunferência da Terra sem fazer consulta a uma tabela. Vamos imaginar que se saiba a distância, cerca de cinco mil quilômetros, entre New York e Los Angeles, e que a diferença de tempo entre as duas costas oceânicas dos Estados Unidos é de três. Ora, três horas correspondem a um oitavo do dia, e um dia é o tempo necessário para o planeta completar um revolução. Portanto, a circunferência da Terra pode ser estimada como o produto de oito por cinco mil quilômetros, ou seja, quarenta mil quilômetros. No equador, a circunferência da Terra é, na realidade, 40 076km. Nas palavras de John Milton3:


tão fácil parece,
depois de encontrado; o que oculto, para a maioria,
parecia
impossível.


Os problemas de Fermi podem parecer-se com os enigmas estampados nas páginas de revistas de bordo de aeronaves, ou em outras publicações populares (dados três vasos com oito, cinco e três litros de capacidade, respectivamente, com se pode medir exatamente um litro?), mas são de gênero bem diferente. A resposta a um problema de Fermi, em contraste com a dos enigmas, não pode ser verificada por uma dedução exclusivamente lógica, e é sempre aproximada (a fim de determinar com precisão a circunferência da Terra é indispensável que o planeta seja realmente medido). Além disso, para resolver um problema de Fermi, é necessário ter o conhecimento de fatos não mencionados no enunciado do problema (em contraste com isso, a charada dos três vasos tem todas as informações necessárias para a sua resolução).

Estas diferenças indicam que os problemas de Fermi estão mais intimamente ligados ao mundo físico do que os enigmas matemáticos, que raramente têm qualquer coisa de prático a oferecer aos físicos. Nesta mesma linha, os problemas de Fermi lembram dilemas comuns que uma pessoa qualquer encontra diariamente ao longo da vida. Na realidade, os problemas de Fermi, e a forma de resolvê-los, não são apenas essenciais para a prática da Física, mas também são valiosos pela lição que oferecem na arte de viver.

Quantos afinadores de piano devem existir em Chicago? A natureza excêntrica desta pergunta, a impossibilidade de alguma resposta exata, e o fato de Fermi a ter proposto às suas turmas na Universidade de Chicago, elevaram-na ao status de mito. Não há uma solução padrão (e esta é a questão central), mas qualquer um pode fazer hipóteses que levam rapidamente a uma resposta aproximada. Uma delas: se a população da área metropolitana de Chicago for de três milhões de pessoas, se a família média for constituída por quatro pessoas, e se um terço de todas as famílias tiver um piano4, existem 250 000 na cidade. Se cada afinador afinar 4 pianos por dia, 250 dias por ano, totalizando 1 000 afinações por ano, devem existir 25 afinadores na cidade. A resposta não é exata; podem ser 10 ou 50. Mas, conforme uma consulta às páginas amarelas do catálogo de telefones, a resposta está definitivamente dentro do razoável.

A intenção de Fermi era mostrar que, embora no ponto de partida nem mesmo a ordem de grandeza da resposta seja conhecida, é possível avançar com base em hipóteses diferentes e assim chegar a estimativas que estão dentro do intervalo razoável da resposta. A razão desse efeito é a de os terem tendência a se cancelarem mutuamente numa seqüência de cálculos5. É possível admitir, acima, que apenas um sexto das famílias, e não um terço, tenha o seu próprio piano; mas então talvez os pianos tenham que ser afinados a cada cinco anos, e não a cada dez anos. Também é improvável que todos os erros de uma estimativa sejam por falta (ou por excesso), assim como é improvável que uma dada moeda mostre sempre cara (ou coroa), numa série de jogadas. A lei das probabilidades impõe que os desvios em relação às hipóteses corretas tendam a se compensar, de modo que os resultados finais convirjam para o número correto. Uma cautela essencial é a de evitar que um certo viés favoreça os desvios numa ou noutra direção.

Como é natural, os problemas de Fermi propostos aos físicos tratam de átomos e de moléculas, com mais freqüência do que de pianos. A fim de respondê-los, é necessário ter na memória algumas grandezas básicas, como o diâmetro aproximado de um átomo típico ou o número de moléculas de água numa colher de sopa cheia6. Com estas informações, é possível estimar, por exemplo, o desgaste do pneumático de um carro, numa revolução das rodas, em condições normais de tráfego. Vamos admitir que a banda de rodagem tenha a espessura de 1cm e que seja desgastada inteiramente em 60 000km. Se dividirmos 1cm pelo número de voltas feitas por um pneumático típico, com a sua circunferência típica, em 60 000km, a resposta é da ordem de grandeza de um diâmetro molecular.

Um outro problema de Fermi ilustra a imensidão do número de átomos e moléculas que nos rodeiam. O problema é o de provar um teorema denominado “o último suspiro de César” que afirma haver, em qualquer inspiração de qualquer pessoa, pelo menos uma molécula do ar que Júlio César expirou ao morrer. Sob o enunciado escondem-se uma restrição e diversas hipóteses. A restrição é a de o teorema só poder ser aproximadamente correto, pois se baseia em médias. Se uma pessoa inalar três ou quatro vezes, sem encontrar qualquer molécula do ar de César moribundo, não deve ficar desapontada; adiante, irá inalar diversas delas de uma só vez. Uma das hipóteses é a de não terem sido adicionadas moléculas de ar à atmosfera nos dois últimos milênios, nem terem sido tiradas de circulação outras moléculas de ar, em virtude de combinações; o que certamente não é rigorosamente correto. Também se admite que o último sopro de César tenha tido a possibilidade de misturar-se uniformemente com toda a atmosfera, o que também não é hipótese muito realista. Porém, se ambas as hipóteses forem aceitas, o teorema será verdadeiro e poderá ser aplicado também ao último suspiro de Átila, ou de Sócrates ou de Jesus.

O ponto focal da parábola é o de ser imenso o número de moléculas exaladas numa só respiração humana, e também muito grande o número de moléculas na atmosfera terrestre. A fim de provar o teorema, estima-se o volume total da atmosfera e depois divide-se este volume pelo volume de ar nos pulmões. A resposta é o número de pulmões cheios contidos na atmosfera, e este número é aproximadamente igual ao número de moléculas de ar contidas no último suspiro de César. Os dois números são redondamente iguais a um décimo do número de Avogadro, 6 x 1023, que é um número que cada físico tem de cor.

Problemas de Fermi mais momentosos podem ter relação com o programa de energia (o número de células solares necessárias para fornecer uma certa quantidade de eletricidade), ou com a qualidade do ambiente (a quantidade de chuva ácida provocada pela queima de carvão nos Estados Unidos), ou com a corrida armamentista. Os físicos prudentes – que procuram evitar falsas pistas e impasses – operam de acordo com um princípio há muito estabelecido: nunca principiar um cálculo até que se saiba a faixa de valores dentro da qual a resposta procurada deva estar (e, com igual importância, a faixa dentro da qual a resposta provavelmente não estará). Estes físicos abordam todos os problemas como se fossem problemas de Fermi, estimando a ordem de grandeza dos resultados antes de principiar uma investigação mais fundamentada.

Os físicos também usam problemas de Fermi para intercomunicarem-se. Quando se reúnem em anfiteatros de universidades, ou em centro de convenções, ou em restaurantes franceses7, quando descrevem novas experiências ou discutem problemas pouco conhecidos, muitas vezes fazem um exame geral da região, limitando, de forma numérica, a extensão do problema abordado. Os que estão acostumados a enfrentar problemas de Fermi, abordam a experiência, ou o problema proposto, como se lhes pertencessem, e demonstram a compreensão dos princípios físicos subjacentes mediante a realização de cálculos aproximados. Se a conversa for a respeito de um novo acelerador de partículas, os físicos podem fazer uma estimativa do campo magnético necessário; se a questão for a estrutura de um novo cristal, podem estimar o espaçamento entre os respectivos átomos. O objetivo é o de chegar a uma resposta razoável com o dispêndio do menor esforço. É este o espírito de independência que Fermi, possuindo-o em ampla medida, procurava estimular mediante problemas não convencionais.

Problemas a respeito de bombas atômicas, de afinadores de pianos, de pneumáticos de carros, de aceleradores de partículas e de estrutura cristalina têm pouca coisa em comum. Porém, a maneira como são respondidos é a mesma em cada caso e esta maneira pode ser adotada na resolução de problemas fora do campo da física. Quer o problema seja de culinária, de reparo de automóveis, ou de relações pessoais, existem dois tipos básicos de formuladores de respostas. Os de coração fraco buscam a autoridade – livros de referência, patrões, consultores especialistas, físicos, padres – enquanto os de mente independente mergulham no bom senso que possuem, e no conhecimento objetivo que qualquer um dispõe, fazem hipóteses razoáveis e deduzem as soluções originais, evidentemente aproximadas. Com toda certeza, seria tolice fazer neurocirurgia em casa; porém, desafios cotidianos como fazer um molho picante, substituir uma bomba de água, ou resolver uma pendenga familiar, podem ser solúveis com nada mais que um pouco de lógica, bom senso e paciência.

Nem todo mundo confia em abordagens informais. Por exemplo, algumas pessoas ficariam céticas diante da análise de Fermi sobre um ensaio de uma bomba de dois bilhões de dólares, feita com um pequenino punhado de papeluchos. Esta atitude revela menos, talvez, sobre o conhecimento que detêm do problema do que da atitude que assumem diante da vida.

Ao cabo, o valor de se abordarem problemas de ciência, ou da vida cotidiana, pela forma que Fermi adotava está na recompensa de se fazerem descobertas ou invenções independentes. Não importa que a descoberta seja tão importante quanto a determinação do rendimento de uma bomba atômica, ou tão insignificante quanto a estimativa do número de afinadores de pianos numa certa cidade. De certa forma, saber antecipadamente a resposta, ou deixar que uma outra pessoa a encontre, leva a uma frustração; rouba da pessoa o prazer e o orgulho que acompanha a criatividade e despoja o sujeito de uma experiência que, mais do que qualquer outra na vida, reforça a autoconfiança. A autoconfiança, por sua vez, é pré-requisito essencial para resolução dos problemas de Fermi. Assim, tratar dos dilemas pessoais como problemas de Fermi pode iniciar uma reação em cadeia e constituir um hábito que enriquece a vida.


1- Texto extraído na íntegra, com apenas algumas transformações de unidades e correções de tradução, de: TIPLER, P. Física. Horacio Macedo. 3ª edição. Rio de Janeiro, LTC, 1995. Vol. 1, págs. 10 a 12.

2- Trata-se de uma opinião pessoal do autor, portanto pode não ter nada de científico.

3- Poeta e professor de ciências inglês.

4- Para uma típica região metropolitana brasileira essa estimativa seria totalmente diferente, dada a má distribuição de renda da população.

5- Sinceramente não sei se o próprio Fermi concordaria com esta afirmação, muito menos é isto que a teoria dos erros ensina.

6- 1mol de H2O.

7- Ou, no caso dos físicos brasileiros, ao redor de uma mesa de bar mesmo, mas bem que poderia ser ao redor de uma mesa de chá.


Mais informações sobre o assunto:

Enrico Fermi, gênio e simplicidade

University of Maryland Fermi Problems Site

Order of Magnitude Physics

Purcell's numerology handout



PS: as notas de rodapé, obviamente, são minhas. :)

terça-feira, julho 24, 2007

Breve biografia de Bertrand Russell

Bertrand Russell (nascido em 18 de maio de 1872, no País de Gales): filósofo neo-empirista, lógico e matemático, dentre os maiores do século XX, Prêmio Nobel de Literatura em 1950.

“(...) Em sua Autobiografia (1962), olhando para toda sua vida, Bertrand Russell escreveu: ‘Acho que valeu à pena vivê-la e a reviveria alegremente se me fosse oferecida essa possibilidade’. Uma vida que, prossegue ele, foi dominada ‘por três paixões simples, mas de força irresistível: a sede de amor, a busca do conhecimento e uma imensa piedade pelos sofrimentos humanos’.

(...) Persuadido de que os valores não podem ser deduzidos logicamente do conhecimento, Russell foi tenaz defensor da liberdade do indivíduo contra toda ditadura e contra os abusos do poder. Sensível às injustiças sociais, Russell também foi convicto defensor do pacifismo.

Ele fez questão de escrever, falando sobre a Primeira Guerra Mundial: ‘Um efeito da guerra foi o de tirar-me a possibilidade de viver num mundo de abstrações. Eu olhava para os jovens que subiam nos trens militares para irem se fazer massacrar nas trincheiras por culpa da estupidez dos generais. Sentia uma intensa compreensão para com aqueles jovens e me sentia ligado ao mundo real, em um estranho matrimônio de dor. Todos os elevados pensamentos que tive sobre o mundo abstrato pareciam-me pequenos e vulgares diante dos terríveis sofrimentos que me circundavam. O mundo não humano tornava-se um refúgio ocasional, mas não uma pátria onde fosse possível construir uma moradia permanente’.

Com suas dilacerações e seus sofrimentos, amiúde inúteis, a vida irredutível e obstinada levou Russell do céu da matemática à terra dos homens sofredores. Adversário das injustiças do capitalismo não foi menos duro em relação aos métodos do bolchevismo *.

(...) Em 1954, apoiado por Einstein, promoveu uma campanha contra os armamentos atômicos.

(...) Pacifista coerente e desmistificador corajoso, Russell pagou pessoalmente pelos seus ideais. Foi processado várias vezes, esteve em prisão **, enfrentou a impopularidade, foi-lhe tirada a cátedra de filosofia no City College de Nova Iorque. (...) a Corte Suprema de Nova Iorque decretou o afastamento de Russell, cuja obra foi qualificada de ‘obscena, libidinosa, lasciva, depravada, erótica, mentirosa e desprovida de qualquer fibra moral’.

(...) Russell defendeu o amor livre. Causou-se quatro vezes e, evidentemente, divorciou-se três vezes. Em 1927, juntamente com a segunda mulher, Dora Winefred Black, chegou a fundar uma escola baseada em princípios educativos ‘revolucionários’: nela, os rapazes e moças liam aquilo que quisessem, nunca eram punidos, tomavam banho juntos e corriam nus pelo parque. A escola faliu.

(...) Na realidade, como recorda seu biógrafo A. Wood, Russell ‘combateu um estado de coisas cruel e absurdo, no qual os jovens eram mantidos deliberadamente na ignorância dos fatos sexuais, de modo que um rapaz podia acreditar que as mudanças de puberdade fossem sintomas de alguma pavorosa doença e uma moça podia se casar sem saber o que a esperava em sua noite de núpcias, no qual ensinava-se às mulheres a ver as relações sexuais não como uma fonte de alegria, mas como um penoso dever matrimonial, no qual a pruderie chega ao ponto de envolver em drapeados as pernas dos pianos, no qual o mistério criado artificialmente evocava uma curiosidade doentia e a hipocrisia se acompanhava de infidelidade, no qual não havia saída da infelicidade de um matrimônio fracassado senão através das complicadas provas legais do adultério e no qual um rígido código moral se acompanhava da tácita aceitação da prostituição.’

Russell dedicou sua vida a um mundo novo, no qual, como ele fazia questão de dizer, ‘o espírito criativo é vivaz, e em que a vida é uma aventura de alegria e de esperança (...), um mundo no qual o afeto tenha livre trânsito e onde a crueldade e a inveja tenha sido afugentados pela felicidade e pelo desenvolvimento livre e solto de todos aqueles instintos que constroem a vida e a enchem de delícias intelectuais. Esse mundo é possível: ele espera apenas que os homens queiram criá-lo.’

Russell também escreveu uma brilhante História da filosofia ocidental (4 vols., 1934), onde tenta mostrar que ‘os filósofos são resultado de seu meio social’. Bertrand Russell morreu*** na noite de 03 de fevereiro de 1970, uma segunda-feira.”

* Bolchevismo: sistema político dos bolcheviques.

Bolchevique: diz-se da ala majoritária do Partido Operário Social Democrata da Rússia que, com Lenin, liderou a revolução de 1917, e por fim passou a constituir-se no Partido Comunista da antiga União Soviética.

** Por quatro meses.

*** Mentalmente lúcido e atento, aos noventa e oito anos de idade, no País de Gales.

Texto extraído de: REALE, G.; ANTISERI, D.. História da Filosofia V. III. Editora Paulus, São Paulo, 1991.

"O processo que levou uma ameba a se transformar no homem é considerado obviamente um progresso pelos filósofos - se a ameba concordaria com essa opinião, não se sabe."

Bertrand Russell

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

“UM DECÁLOGO LIBERAL”(*)

por Bertrand Russell

Talvez a essência da concepção liberal possa ser resumida num novo decálogo, sem a intenção de substituir o antigo mas, tão só, de suplementá-lo. Os Dez Mandamentos que, como professor, eu gostaria de promulgar, poderiam ser enunciados da seguinte maneira:

1. Não te sentirás absolutamente certo de coisa alguma.

2. Não pensarás ser vantajoso progredir escondendo as provas, pois estas virão à luz inapelavelmente.

3. Não desencorajarás o raciocínio pois com ele vencerás.

4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja a de teu marido ou de teus filhos, esforçar-te-ás por superá-la pela força dos argumentos e não pela da autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não respeitarás a autoridade de outros, pois encontrar-te-ás com autoridades contraditórias.

6. Não usarás do poder para suprimir opiniões que julgas perniciosas, pois se o fizeres as opiniões suprimir-te-ão.

7. Não temerás ser excêntrico em tuas opiniões pois toda e qualquer opinião hoje aceita já foi outrora excêntrica.

8. Encontrarás mais prazer na divergência inteligente do que na concordância passiva visto que, se apreciares devidamente a inteligência, a primeira implica um acordo mais profundo do que a segunda.

9. Serás escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois mais inconveniente será quando tentares ocultá-la.

10. Não sentirás inveja da felicidade daqueles que vivem num paraíso de insensatos, pois somente um insensato pensará que isso é felicidade.

(*) Este decálogo apareceu pela primeira vez no final do meu artigo “The Best Answer to Fanaticism: Liberalism”, em The New York Times Magazine, 16 de dezembro de 1951.

Extraído da Autobiografia de Bertrand Russell, vol. 3, pp. 71 e 72.
Fazer o que se ele pensou nisso bem antes de muita gente e ainda pôs em prática. :)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Carnaval, a festa cósmica das danças

Desde as mais distantes eras, diferentes povos estabeleceram festas de grande alegria. Assim, encontram-se entre os egípcios as festas de Ísis e do touro Ápis; bacanais entre os gregos; lupercais e saturnais entre os romanos. Todas envolviam festins, danças e disfarces. Embora seja muito difícil caracterizar a origem verdadeira do Carnaval, parece que nossos atuais festejos estão intimamente associados às duas últimas festas romanas.
Logo após o início do Ano-Novo, os romanos, nas calendas de janeiro, comemoravam as saturnais, festas instituídas por Janus em memória do deus Saturno que, segundo a lenda, teria transmitido a arte da agricultura para os italianos. Durante as saturnais, as distinções sociais não eram levadas em consideração. Os escravos ocupavam os lugares de seus patrões, que os serviam à mesa. Nesse período não funcionavam os tribunais e as escolas. Os julgamentos eram suspensos e os condenados não podiam ser executados. Interrompia-se toda e qualquer hostilidade. Os escravos percorriam as ruas cantando e se divertindo na maior desordem. As casas eram lavadas e purificadas. As pessoas de um certo nível social preferiam se retirar para o campo, durante as saturnais, o que permitia ao povo celebrar com maior alegria esse período de liberdade.
Numa seqüência lógica aos excessos libertários, os romanos procediam à sua purificação pelas comemorações das lupercais, festas celebradas em 15 de fevereiro, em homenagem ao deus Pã, matador da loba que aleitara os irmãos Rômulo e Remo, fundadores de Roma, segundo a lenda.
Nesses festejos, celebrava-se o princípio da fecundidade. Durante as comemorações das lupercais, untados em sangue de cabra e lavados com leite, os lupercos nus, com uma pele de um bode aos ombros, saíam pelas ruas batendo nos pedestres com uma correia de couro. As mulheres grávidas saíam às ruas e se ofereciam às correadas, na esperança de escaparem das dores do parto. Por outro lado, as mulheres com desejo de ter um filho também procuravam ser atingidas pelos golpes das correias dos lupercos, na esperança de virem a engravidar.
Como todos esses festejos, que consistiam essencialmente em mascaradas, disfarces e danças, já estivessem de tal modo implantados nos costumes quando do surgimento do cristianismo, a Igreja só teve uma saída: adotou-os e ao mesmo tempo, procurou santificá-los.
De fato, o Carnaval parece ter tido sua origem nessas antigas comemorações pagãs, em geral de grande alegria e liberdade, que eram celebradas durante a passagem do ano e/ou com objetivos de anunciar a próxima chegada da primavera. Com efeito, Carnaval era o tempo de regozijo, que ia desde a Epifania até a Quarta-feira de Cinzas. Com o tempo, essa festa acabou limitada aos últimos dias que antecediam ao início da Quaresma, período de 40 dias que vai da quarta-feira de cinzas até o domingo de Páscoa, e durante os quais os católicos e ortodoxos fazem sua penitência.
O período carnavalesco oscilou e ainda oscila segundo as tradições de cada país. Assim, parece que ele se iniciou primitivamente na Idade Média, em 25 de dezembro, incluindo a festa de Natal, o dia do Ano-Novo e a Epifania (6 de janeiro). Mais tarde, passou a ser comemorado desde o dia de Reis até um dia antes das Cinzas. Em alguns lugares da Espanha, sua comemoração incluía a quarta-feira de Cinzas. Em alguns países, só se comemora na terça-feira, ao passo que no Brasil é festejado no sábado, domingo, segunda e terça-feira.
Na Bahia, comemora-se o Carnaval também na quinta-feira da terceira semana da Quaresma. Trata-se da micareta, festa popular carnavalesca que tem sua origem na Mi-carême.
Esses festejos de janeiro e fevereiro, ligados às antigas cerimônias pagãs de abertura do ano, foram associados, como já demonstraram os peritos em folclore, às festas cristãs. Não eram simples rituais desprovidos de significação mais profunda, como se poderia supor inicialmente. Na verdade, as festas populares cíclicas dos países cristãos, que serviam para abrir o ano e anunciar a vinda da primavera, estão todas elas intimamente associadas ao fenômeno astronômico do solstício de inverno, no Hemisfério Norte, de onde surgiram todas essas práticas. As igrejas católica e ortodoxa herdaram tais festas ou rituais do mundo pagão, que por seu lado, as teria recebido do Oriente. Assim, na realidade, todos os festejos cíclicos, como o próprio Carnaval estariam associados às regiões que apresentam as mesmas mudanças metereológicas. Ao contrário, em virtude da inversão das estações entre os hemisférios, as festas do Carnaval, comemoradas durante o inverno no Hemisfério Norte são celebradas, no Hemisfério Sul, em pleno verão.

Texto extraído de: MOURÃO, RONALDO R. DE F. O Livro de Ouro do Universo, Ediouro, Ri o de Janeiro, 2000, pp. 49-51.(*)

(*) Excelente livro de divulgação científica, pena que a revisão foi muito mal feita e por isso há vários problemas tipográficos.


Pois é, lendo a história acima vemos que a humanidade não evoluiu espiritualmente quase nada em 25 séculos, do jeito que as coisas andam não pode ter evoluído mesmo, por isso há alguns anos cheguei à conclusão que o carnaval é a melhor época para se ler livros, pois se fica em paz quando o resto do mundo vai para a esbórnia. Aproveitei este carnaval para devorar a Autobiografia de Bertrand Russell (três volumes) que demorou aproximadamente um ano para chegar em minhas mãos, sua leitura me foi recomendada por um físico da USP, o prof. Henrique Fleming, e agora a recomendo a todos que se dizem humanos.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Intelectuais?



"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade." Paulo Freire.


Há intelectuais de verdade no Brasil? Se há, são raros. Talvez esteja aí a explicação de muita gente não eceitar um metalúrgico na presidência, por achar que a intelectualidade é prioridade dos letrados das classes estribadas. Esses figem que não sabem que os maiores gênios da humanidade quando não renegavem suas riquezas, viviam pauperrimamente ou até mesmo na miséria, e nem por isso deixavam de ser intelectuais.


P.S. 1:  (03/09/2013) eu estava errado no meu julgamento, o problema com o metalúrgico apedeuta não era propriamente a falta de instrução e sim as más intenções disfarçadas sob um carapaça de "homem do povo", puro populismo demagógico...



P.S. 2:  (04/08/2014) esqueci de dizer que Paulo Ferie, apesar das palavras bonitas da frase acima, não passava de um doutrinador comunista e alienou algumas gerações, os frutos amargos e podres estão ainda em plena safra.


P.S. 3: (04/12/2014) leiam:




http://www.erealizacoes.com.br/livros/CAC_Os-Intelectuais-e-a-Sociedade.asp

quarta-feira, setembro 20, 2006

Por que escrever num blog?

Já tive blog há muito tempo, quando era apenas encarado como lugar onde patricinhas escreviam suas futilidades, e quando não se podia moderar comentários, a coisa era tão séria que alguns colegas me olhavam atravessado e faziam chacota... pobres mentes míopes.

Deixei de publicar por falta de tempo, agora estou de volta, não com tempo, mas pelo menos com mais coragem, já que o rol de quem eu tenho que chamar de fdp está cada dia maior e não consigo ficar calado mesmo.

Hoje blog virou coisa de jornalista importante e até de grandes (e não tão grandes assim) cientistas (mais gente para o rol supracitado).

Por que escrever num blog? Para mim é pelo mesmo motivo que se escreve um livro (útil), para propagar alguma informação que possa ser útil, divertida ou simplesmente informativa e nada mais. Tanta gente escreve tantos livros que não passam de lixo e ainda ganham dinheiro com isso, então por que eu não posso escrever alguma coisa que não é tão lixo assim (que pelo menos possa levar alguém de um ponto a outro) de graça?

No mais não estou interessado em conversar fiado e sim em causar impacto, perturbar e mesmo chatear uma porção de babacas (de todos os tipos possíveis) que andam poluindo a internet com um monte de futilidades e inverdades, entre outros.

E para começar:

“O que nos diferencia dos outros animais é muito pouco, mas poucos gozam deste pouco.” Confúcio (~500 a.C.)

li isso quando criança, entendam como quiserem.